ESTÓRIAS DO EU (2011)

Neste projecto pretendeu-se trabalhar a narrativa fotográfica, sendo que cada participante contou a sua história de vida. Como simbolismo de uma visão exteriorizada do Eu, foram utilizados espelhos no processo de criação de imagem. Cada participante transportou uma mala com um espelho que serviu para reflectir a história de vida imaginada pelo outro. O projecto teve várias fases no processo criativo, foram ensinadas competências e ferramentas técnicas para o desenvolvimento de narrativas produzidas pelas histórias de vida de cada participante. Foram abordados os conceitos básicos da fotografia, foram dadas noções de estética fotográfica, auto representação, noções de narrativa, noções de encenação e construção de histórias fotográficas. Os participantes escreveram a sua história com os momentos mais relevantes e interpretaram palavras em imagens. No final o objectivo foi obter uma construção identitária e criar a capacidade de comunicar conceitos e emoções na narrativa fotográfica. O projecto terminou numa exposição final do Projecto Integrar pela Arte, onde se pretendeu uma leitura sequencial das imagens de acordo com a representação da história de vida imaginada por cada autor.

Projecto realizado no Centro Educativo da Bela Vista em Lisboa. Parceria Institucional do Ministério da Justiça e Financiamento da Secretaria de Estado da Cultura/Direcção-Geral das Artes.


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As imagens que fotografei são sobre o mar e por isso a minha estória desenvolve-se nele.

A pérola representa o meu eu, a dona o desejo de ser feliz e rico, o polvo a máquina fotográfica e o pai o projeto.

Sou uma pérola perdida no meio do oceano. Perdi-me porque a minha dona mergulhou de um barco e com o impacto caí.

Desesperada, vejo os peixes a passar por mim e não me ligam nenhuma, até parece que não sou ninguém!

Será que a minha dona está à minha procura como eu estou à procura dela?

De súbito, um polvo agarra-me com os seus enormes tentáculos. Grito: -ajude-me a sair daqui.

– Tem calma. Não te assustes. Vou levar-te para terra, respondeu o polvo.

Colocou-me então no seu grande pescoço e transportou-me até ao areal.

Pousada na areia comecei a brilhar para que rapidamente me pudessem ver.

Pouco tempo depois um homem apanhou-me e desatou a gritar:

– Estou rico! Estou rico!

Uma outra voz se aproximava e dizia: pai, essa pérola foi a que eu perdi.

Fiquei toda contente por ter encontrado a minha dona e desde aí nunca mais nos separámos.

 

Pedro

 


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Um dia quando acordei vi que estava dentro de uma mala. Uma mala que continha um espelho e refletia o meu “eu”!

Através dela desenvolvia-se um projeto de fotografia sobre “Estórias do Eu”.

Um projeto estranho mas fixe.

Um projeto que me deixou captar as imagens que me atraiam, me mostrou sítios onde nunca fora e me ensinou a revelar essas imagens.

Além disso, conheci os formadores que me ensinaram como agarrar uma máquina fotográfica, como usá-la e como passar dos negativos para o papel da fotografia.

Foi uma experiência que enriqueceu o meu eu.

                                                                                                Óscar


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Muitas vezes sonho com o Estádio da Luz.

Lembro-me da gaveta que eu abria constantemente, quando estava em casa, e donde saiam jogos de futebol.

– O Benfica finta a bola e domina o jogo.

– Golo, golo, golo!

– Benfica vence o Porto

Era sempre assim que me divertia. As ideias saltavam-me de um lado para o outro como a bola no campo de futebol.

Por isso, com a minha máquina fotográfica recolhi imagens do Estádio do Benfica e revelei-as.

Agora já não é um sonho mas uma realidade!

                                                                                                Rui


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Uma vez, conheci um rapaz que se chamava Rafael e que tinha uma grande paixão pelo kick boxing. Ao longo do seu crescimento a sua paixão por este desporto foi aumentando. Sonhava entrar num ringue a sério.

Um dia no caminho para casa, ele deparou-se com uma academia onde se praticavam vários desportos. No seu placard podia ler-se diferentes tipos de desportos, mas houve um que chamou a atenção do nosso jovem kick boxing.

Sentiu um impulso e resolveu entrar. Não viu ninguém, mas ouviu uns barulhos estranhos atrás de uma porta. Como era curioso, bateu à porta e saiu de lá de dentro um senhor africano completamente transpirado.

Rafael ao vê-lo pediu-lhe para entrar e contou-lhe o seu sonho. Então, o jovem calçou as luvas, o capacete, a proteção de canelas e subiu ao ringue pela primeira vez.

Antes de ter entrado no ringue o jovem passava a vida a sonhar com o dia em que o poderia fazer. E agora ali estava ele, diante de um campeão de kick boxing e equipado para treinar. Não havia sensação mais bela do que aquela, era um sonho tornado realidade.

A partir desse dia, o jovem treinou, competiu e tornou-se o mais jovem campeão nesta modalidade. Aquela primeira visita ao ringue mudou para sempre o rumo da sua vida…

Vando

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Numa bela tarde surgiu no Colégio da Bela Vista uma equipa de fotógrafos com um projeto para nos propor. Desde logo fiquei entusiasmado, porque seria uma boa oportunidade de fazer algo diferente da rotina em que vivemos no centro.

Esta equipa pretendia que fotografássemos a forma como víamos o nosso dia a dia no centro.

De início, como não sabíamos trabalhar com as máquinas tivemos umas aulas para aprender a manuseá-las. Depois iniciámos o nosso projeto tirando fotografias em diferentes ângulos, diferentes espaços e em diferentes alturas do ano.

No dia 1 de Junho, durante um peddy paper organizado pelos professores e formadores, estivemos a tirar fotografias a todos os participantes. Foi um dia engraçado, porque captámos imagens muito interessantes, o que seria impossível de obter num dia normal de aulas. Obtivemos imagens dos colegas a correrem, a saltarem, a rirem, a responderem a questões e até durante a entrega de prémios para quem ficou em 1º lugar e para os restantes. É um dia que para sempre ficará na nossa memória, mas por outro lado também ficou registado com imagens espetaculares.

Tirámos ainda fotografias aos espaços internos do centro como por exemplo: a piscina, a unidade de fim de semana e o campo da RA.

Foi uma boa oportunidade para tirar fotos com uma máquina profissional, para mostrar o meu olhar, pois lá fora nunca teria essa oportunidade. Foi uma experiência extraordinária e que não me importaria de voltar a repetir.

José


O projeto de fotografia “Estórias do eu” foi concebido para jovens que se encontram no Centro Educativo da Bela Vista a cumprir medidas tutelares de internamento, por decisão judicial.

São jovens marcados por agregados familiares problemáticos que conduziram a estórias de vida, onde as emoções bloquearam ou sofreram desvios que nem sempre encontraram os melhores trilhos.

Neste projeto os jovens formando pares, fotografaram através de um espelho contido numa mala. Nesta mala estavam também contidas as emoções, os sentimentos e os gostos de cada um. No espelho, o protagonista saiu do palco, assumiu a posição de público e reconheceu a sua imagem. Esta representação proporcionou a visão de si próprio sob a ótica do outro, agindo como fator de perceção da sua identidade.

Assim como o espelho pela luz reflete a imagem, a luz que traz a imagem pode provocar reflexões sobre si próprio, incluindo a sombra que ela possui inconscientemente.

As imagens obtidas falam por eles.

Para além de toda a experiência vivida e da aquisição da aprendizagem dos modos de fotografar e das técnicas de revelação, estiveram presentes as revelações interiores de cada um.

A complementar a luz está também a sombra, relatada nos textos que acompanham as imagens e que de uma forma “mascarada” vestem as personagens que cada um não quer deixar transparecer.

Saíram contentes e agradecidos. A sua estória cresceu em exponencial positiva e mais uma vez acreditamos que através da Arte, nomeadamente da fotografia, é possível obter resultados que façam brotar do interior de cada jovem a luz e sombra em harmonia e um olhar até aí desconhecido.

                                                                                                Judith Silva Pereira


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Movimento de Expressão Fotográfica